Propulsão

Das braçadas que se repetem, sempre em auto-avaliação. O arranque, molengão, desajeitado, demorando minutos para fazer segundos, a aquecer, a aquecer, deixando para trás o (breve) arrepio provocado pelo diferencial de temperaturas.

E o cansaço a esfumar-se e uma sensação de poder, de invencibilidade a tomar conta do corpo, em respiração sincronizada de vaivém, óculos embaciados piscina após piscina, após piscina, após piscina.

E às vezes mergulhar, sustendo o fôlego, tentando alcançar o outro lado de uma só penada. E é como se eu fosse da água e a água fosse de mim e nem precisasse mais de vir à tona buscar ar e tudo ali me chegasse e completasse.

E quando todos saem, extenuados ou preguiçosos, e fico sozinha para lá ser senhora (ou criança).

E nos momentos, em contínuo, em que podia despir-me e tirar a pele e nada seria estranho, apenas mais do mesmo, igual, peças de um único puzzle, encaixadas, perfeito, perfeitas.

E depois, no duche, quando o calor me toca nas costas, nos músculos ainda tensos, fervilhantes, e me ensaboo, o peito a abandonar a respiração acelerada e os olhos quase exaustos, tranquilos, momentaneamente felizes.

E aquela dormência que fica, o cheiro do cabelo molhado e a ponta dos dedos enrugada, e a calma, tanta calma, e o silêncio de quando deixa de existir mundo fora dali e é isto que perdura, é isto que guardo.
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publicado por outrosdias às 10:18
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