As coisas parvas de que eu me lembro

Fui atropelada. Não hoje, nem na semana passada, mas há uns anos. Tinha ido buscar umas fotocópias e ia a atravessar a estrada, com os braços cheios de papéis, em direcção à paragem do autocarro. Um rapazito, com uma carrinha, a fazer inversão de marcha, não me viu e chocou comigo. Eu vi-o, a fazer a manobra e a chocar comigo e lembro-me de colocar a mão esquerda no capot do carro, como se assim o conseguisse impedir de avançar, e de gritar um "atenção!". O rapazito vinha devagar e parou quase imediatamente. A pancada foi leve, muito leve, mas o suficiente para eu me desequilibrar. Caí, ficando completamente deitada na estrada, as fotocópias a voar por cima de mim. Assim que todo o meu corpo – cabeça incluída – ficou em contacto com asfalto, ouvi um dramático "pronto, já está!".

Lembro-me de ver o céu azul, muito azul e uma chuva de folhas soltas, e o rapazito, muito aflito, a olhar para mim e a perguntar "Estás bem? Estás bem? Não te vi, não te vi...", ao mesmo tempo que me tentava ajudar a levantar. E eu sem me mexer.

Segundos depois de tudo ter acontecido, consegui reagir e recuperar, a medo, o controlo de cada centímetro de mim mesma.

"É melhor levar-te ao hospital... queres que telefone a alguém?", continuava ele.

"Não, não... não te preocupes". Só queria ir-me embora, estava atrasada, com fome, tinha muito que estudar e precisava mesmo das fotocópias que tinha ido buscar e que tinham ficado espalhadas na estrada. Não podia perder tempo com hospitais, radiografias, perguntas e luzinhas a ver o fundo dos olhos.

O rapazito ia insistindo, atrapalhado, enquanto me ajudava a juntar as minhas coisas e eu ia repetindo sempre que estava bem, que não tinha batido com a cabeça (e não bati) e que tinha sido só o susto (e foi).

"Tens a certeza? Olha, toma o meu número de telefone, se precisares de alguma coisa, diz, está bem?", e estendeu-me um papelito, rasgado de um caderno, com umas letras rabiscadas a vermelho.

Sacudi o pó e as pedrinhas da roupa, ajeitei-me o melhor que pude e fui para a paragem. Quando o autocarro chegou, entrei nele, aliviada por encontrar pessoas que não tinham assistido a nada daquilo e que não iriam olhar para mim com um dramático "pronto, já está!".

Em casa, pousei tudo o que trazia nas mãos em cima da secretária do meu quarto e sentei-me num canto da cama. Estava sozinha. E desfiz-me em lágrimas.

[Durante uma semana, andei com o pulso ligado e o corpo dorido. Nessa mesma altura, soube que o irmão de uma professora minha fora atropelado e tinha morrido.]
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publicado por outrosdias às 09:12
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