Cem - quase cento e um - anos

Lembra-se das coisas que lhe conto e pergunta-me sempre pelo trabalho, pelo ser-peludo-que-vive-connosco, pela natação, pelo marido, pelo pneu furado do carro, pelo siso extraído, pelas aftas, pelo cansaço, pelo sono, pelo jantar.

“Já está feito?”

Repete as mesmas histórias sem se dar conta e faz grandes divagações filosóficas que terminam invariavelmente com uma gargalhada ou duas.

“Para o que me havia de dar!”

Diz que já se habituou ao meu telefonema diário e estranha quando me atraso na hora. Atende a chamada chamando-me “raio de luz” e de vez em quando agradece-me por me ter lembrado de lhe telefonar, como se não o tivesse feito no dia anterior, e no outro, e no outro.

“Obrigada por teres ligado… ainda não tinha falado com ninguém hoje!”

Vai saindo à rua, já com menor frequência, para fazer compras e pagar a renda, a água, a luz, o telefone, o gás. Tem preguiças ocasionais em que se mete debaixo do cobertor e fica deitada horas a fio, com a televisão acesa.

“Estava a fazer viagens à volta do umbigo…”

Comprou uma torradeira nova (que ainda não estreou) mas nem sequer sei se se alimenta convenientemente. Mandou arranjar a porta. Teve de reparar o quadro eléctrico. Insiste que continua a ter “ladrões” em casa que lhe levam ninharias.

“Tudo lhes convém…”

Evito perguntar-lhe coisas que sei que a vão magoar ou entristecer, mesmo que passados dez minutos já nem se lembre da conversa. Falo com ela mas na maior parte do tempo limito-me a ouvi-la. E ouço-a quase até ficar sem bateria no telefone.

Quando desligo,

 "Um beijo e um abraço muito, muito afectuoso para ti e para a tua cara metade. As melhoras do teu fiel amigo e até amanhã!"

tenho vontade de chorar.

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publicado por outrosdias às 16:58
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