Transeuntes

Estava sozinho. Provavelmente às escuras. A porta talvez estivesse fechada.

Atou as forças que já não tinha em torno de uma corda e fê-la passar pelo pescoço. Nos dedos retorcidos, entrelaçou uma arma e encostou-a à testa.

Estava sozinho. Provavelmente às escuras. A porta talvez estivesse fechada.

O tiro empurrou-o do banco onde se equilibrava e disparou o fim, simultaneamente engasgado e em sangue.

Estava sozinho. Provavelmente às escuras. A porta talvez estivesse fechada.
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O que há de tão cruel nisto, há também de incrédulo, incompreensível, inaceitável.

O meu vizinho, que se encostava ao portão a apanhar sol e a conversar com quem passava, que nos entrou pelo quintal adentro para cortar uma ramada de uma árvore que caíra durante um temporal, que aguentou uma estóica costura na cabeça sem se submeter a qualquer anestesia, que nos dava dióspiros cheios de bicho mas saborosos como nenhuns outros, que fazia teimosa questão de ver e fazer tudo bem feito, este meu vizinho, que há oito anos nos viu chegar à casa em frente à sua, matou-se.
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publicado por outrosdias às 12:19
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